sexta-feira, 13 de outubro de 2017

O final da minha carreira de atleta... brasileiro

Por Hugo Quinteiro

“Everything that has a beginning… has an end, Neo”

Agent Smith; Matrix Revolution, 2003

Em alguns momentos ter a oportunidade de ver partes da sua vida em retrospecto é algo que causa uma mistura de sentimentos e, dentre eles, a incredulidade.
 Observe a foto acima.
 Se alguém me dissesse, naquele dia, que esse seria meu último momento competitivo representando o Brasil, eu jamais acreditaria. Estava cheio de planos para os próximos campeonatos e já pensando na recuperação da lesão que sofri quando fiz esse levantamento terra aí da foto. Foi feio,  doeu bastante, mas mesmo assim consegui conquistar o bicampeonato mundial e 65kg a mais de total (soma dos três melhores levantamentos) que no ano anterior.
Foram, ao todo, cinco campeonatos mundiais que participei e considero os resultados muito expressivos: quatro títulos e cinco recordes mundiais quebrados em apenas dois anos participando de campeonatos internacionais.
Creio que com esse desempenho representei o Brasil de maneira honrosa e digna.



O saldo final como atleta brasileiro foi positivo e me sinto, de certa forma, escrevendo uma autobiografia póstuma de uma parte minha que não vai mais existir: o atleta brasileiro Hugo Quinteiro.
Esse atleta se despede por uma série de motivos que incluem: falta de sensação de identidade e pertencimento, falta de apoio institucional, de infra-estrutura, de estabilidade econômica e de desprezo das políticas públicas brasileiras dos últimos anos. Contudo, que fique claro que meu respeito ao Brasil e ao público brasileiro permanecem íntegros e inalterados.
Agradeço a cada um dos meus alunos e amigos que me ajudaram nos inúmeros crowdfundings que fiz e até mesmo das doações voluntárias que permitiram que todas essas conquistas se tornassem possíveis. Porém, sei que cada um que me ajudou, não fez pra ajudar um país e sim uma pessoa na qual acreditaram que poderia ir tão longe em um esporte tão pouco valorizado.
Inicio agora uma nova fase como atleta português. Faço isso pela maneira acolhedora com que esse país vem me recebendo (amigos, entidades, alunos, etc) e mostrando um carinho e um apreço que até hoje não havia conhecido. Faço isso, também, por uma questão familiar: quero representar digna e honradamente o país de meu pai e avós, que me ensinaram lições de vida que moldaram profundamente minha percepção de mundo e caráter.
 Apesar da distância, que ainda vai permanecer por algum tempo, serei um atleta português em terras sul americanas representando o país em eventos pelo Brasil e mundo.
Estarei por aqui, em terras brasileiras, ministrando aulas, trabalhando e treinando com a mesma dedicação e comprometimento para que eu represente meu novo país da mesma maneira que por tantos anos representei o Brasil.




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sexta-feira, 16 de junho de 2017

A relação dos meus alunos-professores e a sua atuação profissional





Hoje em dia, existem diferentes maneiras de enxergar a relação entre professor e aluno nos inúmeros segmentos de mercado em que atuam os profissionais de Educação Física. Essas relações, muitas vezes, ditam a maneira com que o professor lida com seu aluno durante todo o período que estão trabalhando juntos.

As principais classificações são:

  • Relação de profissional liberal e seus clientes:
Se estabelece entre um prestador de serviço e um cliente e já possui algumas “leis” implícitas reguladas pelo mercado.
Exemplos:
- o cliente tem sempre razão;
- o cliente possui expectativas então, o profissional deve atender essas expectativas para gerar felicidade e satisfação ao mesmo.

  • Relação de profissional da saúde e paciente:
O paciente possui alguma doença e o profissional trabalha para melhorar a condição e ajudar no tratamento, utilizando conhecimento científico e clínico, guiando o paciente para que ele obtenha melhoras em seu quadro geral.
Normalmente, esse trabalho é feito em parceria com o médico que acompanha esse paciente.
As maiores dificuldades em mensurar evolução estão na interação da atividade física com medicamentos, a adesão desse paciente a uma dieta restritiva e até a resistência em mudança do estilo de vida que ele vinha levando que, convenhamos, se fosse a correta não seria necessária uma intervenção radical multiprofissional.

  • Relação de professor e aluno:
O aluno contrata um professor para que ele venda algo intangível e de difícil precificação pois é muito difícil mensurar. Esse produto chama-se CONHECIMENTO.
Quando uma relação é criada nesses moldes, algumas “leis” se tornam implícitas. Exemplos: na relação de ensino-aprendizagem o aluno nem sempre tem razão, o professor conhece diferentes formas de abordagem pedagógica para que esse processo se torne o melhor possível e esse aluno aprenda o que precisa ser ensinado. A remuneração se dá, primariamente, pelo conhecimento e não pela “empreitada”.

Dentre todas elas, acredito que a relação professor-aluno seja a mais adequada e a que melhor representa o serviço que o profissional de Educação Física presta nos segmentos de mercado que atua.

Claro que existem componentes de profissional liberal-cliente e profissional da saúde-paciente em todas as relações porém, enxergar essa relação primariamente como professor-aluno nos permite trabalhar de maneira mais adequada com aquilo que realmente fazemos e acreditamos: devolver - reeducando - padrões fundamentais de movimentos que foram perdidos devido a uma alienação corporal, causada pela forma com que as sociedades ocidentais se organizaram pós revolução industrial.

Eu ofereço ao mercado o que acredito ser a relação mais adequada: o conhecimento. Com este cenário de atuação bem posicionado e claro, meus alunos-treinadores exercem o efeito multiplicativo, ou seja, esse conhecimento passa a ser ensinado ao seus alunos devido a sua alta aplicabilidade e grande conteúdo prático oferecido nos cursos que ministro.


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domingo, 11 de junho de 2017

A importância do ensino presencial no treinamento de força



Não me entendam mal, nem generalizem o texto pelo título: eu gosto e acho muito válido o ensino a distância. Eu mesmo já utilizei algumas vezes da ferramenta e acrescentou conceitos importantes em minha formação.
O estudo a distância permite que o conhecimento chegue a alunos que não seriam possíveis de outra maneira, seja por distância, por tempo ou simplesmente por valores. Porém, acreditar que o ensino a distância seja a tábua de salvação de uma geração de profissionais do movimento humano é perigoso e pode levar a uma atuação profissional catastrófica.
Creio que esses profissionais devam uma parte importante da sua formação ao conhecimento tácito transmitido de profissional para aluno/profissional pois, não se coloca em texto, muito menos em vídeo, aquilo que se aprendeu na prática. Também não sou um defensor da dissociação de teoria e prática e devo parte importante da minha formação ao sistema acadêmico tradicional.
É importante que o profissional do movimento humano saiba ler criticamente um artigo científico, entenda conceitos importantes de fisiologia, cinesiologia, biomecânica, treinamento desportivo, etc mas também saiba o “como fazer”: saber como corrigir um aluno especificamente; ajustar - por tentativa e erro - os detalhes para que o movimento de um aluno se torne fluído e seguro para sua execução; entender a importância da segurança dos levantamentos por ter vivenciado situações e por vivência própria acumulada.
Por isso, divido minhas aulas em:
1) Conteúdos teóricos e conceituais: podem ser aplicados com os alunos apenas observando a aula e interagindo, sanando dúvidas para formação de conceitos. Esse conteúdo pode ser transmitido tanto em aula presencial quanto a distância, pois essas duas formas de ensino-aprendizagem geram resultados satisfatórios e adequados.
2) Conteúdo tácito de predomínio prático: não é possível ser ensinada a distância, como por exemplo: não se ensina percepção subjetiva de esforço máximo sem que a pessoa seja colocada em uma situação segura para poder vivenciar essa sensação; não se ensina sobre a melhor eficiência individual da abertura de pisada de um agachamento se o aluno não vivenciar diversas pisadas e encontrar a melhor abertura de pisada que funcione pra ele, pois é impossível eu descrever a sensação de “agora funcionou pra mim”; não se ensina com slides qual o melhor ponto para uma barra encostar no peito durante o supino, levando em consideração todas as proporções corporais daquele aluno, porque a sensação do “agora ficou leve e fácil” não se descreve com palavras.


Claro que, ambos os métodos de ensino possuem limitações. Enquanto o ensino a distância não possibilita o ensino do conhecimento tácito, o ensino presencial exige que se forme uma turma, por determinado período de tempo, com limitação da quantidade de alunos possíveis, tudo para que haja uma vivência e aprendizado adequados do conteúdo, logística de equipamentos necessários e a presença física do professor, o que, consequentemente, gera um aumento nos valores finais deste tipo de formação.
Cabe ao aluno entender as vantagens e limitações de cada uma das formas de ensino e o porquê das diferenças de investimento em cada uma das modalidades de cursos.
Atualmente acredito que a formação universitária fornece conteúdos conceituais adequados à formação dos profissionais do movimento humano e toda lógica acadêmica para que o aluno egresso das universidades seja capaz de entender conceitos importantes relacionados à sua área e consiga entender a dinâmica que envolve o entendimento da produção científica e como adquirir, através de leitura crítica, este conhecimento.
Vejo que o ensino universitário, de maneira geral, ainda falha na formação tácita e prática dos alunos, e os motivos são multifatoriais: falta de uma integração da universidade com projetos que envolvam a comunidade e a atuação cotidiana dos profissionais que estão formando, a passos lentos, mudanças nas grades curriculares para adequação das necessidades de mercado atual e, até mesmo, da falta de vivência profissional que boa parte dos professores universitários possuem pois, suas formações acadêmicas não acompanham tendências ou necessidades de mercado e sim as dinâmicas inerentes da ciência.
Portanto, hoje foco minha atuação como professor no aspecto prático para melhorar a atuação do aluno que me procura em cursos: quero saber quais são suas dúvidas e seu interesse pelo curso, onde posso contribuir pra ele ter uma atuação melhor com o aluno que chega até ele, mostrar que existem múltiplos caminhos para o aprendizado, fazê-lo vivenciar diversas situações para que entenda o que o aluno vai passar com o treinamento, adaptar o conhecimento adquirido para que ele utilize em diversos tipos de público e transformar a clínica prática em um grande laboratório, onde ele possa fazer um simulado supervisionado  de correção dos colegas que também estarão vivenciando a prática e isso ser discutido de maneira que o conhecimento seja construído e não verticalizado pela relação professor-aluno.


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sábado, 27 de maio de 2017

Dicas para se tornar um atleta em powerlifting

Por Hugo Quinteiro



Resolvi escrever esse texto por dois motivos:
1° - ajudar alunos principiantes com dúvidas comuns a se prepararem para seu primeiro campeonato;
2° - (mais profundo) tem a ver com o modo de encarar a vida de atleta com o atual panorama de gestão do esporte em terras brasileiras e internacionais.
Claro que, como dicas, não passam de impressões pessoais e nem de perto pretendo escrever uma verdade universal. Você pode se identificar com algumas coisas, seguir e dar certo ou não se identificar e não seguir as dicas. Cada um é responsável pelo seu próprio caminho, né?

PARTE I: COMO SE PREPARAR PARA UM CAMPEONATO

1- Tenha um plano
Treinar força é legal e divertido. Escolher competir em um esporte de força pode não ser a mesma coisa.
Procure um modelo de periodização (ou contrate um treinador especializado) e SIGA O QUE ELE PROPUSER.
Das características mais importantes de um atleta, ao meu ver, estão a capacidade dele em obedecer e a de cumprir um planejamento. Se  isso não é algo fácil pra você, repense se deve ou não competir e se realmente quer ser um atleta.

2- Não se preocupe com cargas
Querer saber qual carga mínima para uma competição ou se o que você fez na academia é um bom número não é uma boa maneira de pensar como um futuro atleta. Vá ao seu primeiro campeonato com o pensamento de vivenciar o esporte. O que você faz na academia, sozinho e sem ninguém julgando, não tem muita validade comparativa.

3- Visite um campeonato
Ir à um campeonato como espectador ou para ajudar um amigo é algo importante, pois você vai entender a dinâmica do esporte (chato, demorado e com longos intervalos entre uma pedida e outra).
Estar previamente em um campeonato vai ajudar na hora em que chegar a sua vez, porque aquele ambiente e dinâmica não serão novidades mais pra você e vão gerar menos ansiedade.

4- Não se preocupe com seu peso corporal
Em seu primeiro campeonato, não faça loucuras com a balança. Vá com o seu peso habitual e sua dieta habitual. Manipular peso corporal é algo para atletas avançados que estão buscando marcas e situações específicas; você está começando, ou seja, esse não é o seu caso.

5- Leia o livro de regras e participe do congresso técnico

Dúvidas comuns (quais comandos serão dados, como fazer as pedidas ou como mudá-las) são facilmente solucionadas com uma simples leitura do livro de regras e prestando atenção no congresso técnico que os organizadores promovem. Desconhecer as regras é considerado uma falta de educação e um certo desleixo de sua parte. Evite dar trabalho a quem já está completamente atarefado (organizadores e árbitros).

6- Acostume-se com grandes intervalos




Os intervalos entre uma pedida e outra em um campeonato são de, pelo menos, 15 minutos. Se esse tempo todo fizer você “esfriar” ou perder o foco, treine isso durante a sua preparação. As regras não vão mudar quanto a esse tempo e você deve se adaptar a isso.

7- Fique atento com o aquecimento

Aquecimento no powerlifting possui alguns detalhes:
a- faça o máximo dele em movimentos únicos. Perceba o esforço em cada movimento e evite se desgastar;
b- NUNCA faça repetição máxima ou falhe em aquecimento (afinal, é AQUECIMENTO);
c- Fique de olho na dinâmica do tablado competitivo para aquecer no tempo certo. Termine seu aquecimento aproximadamente 15 minutos antes de chegar a sua vez.

8- Valide suas marcas



  Sua principal preocupação em um primeiro campeonato é fazer, pelo menos, uma marca válida de cada movimento e não ser desqualificado. Não se preocupe se você fez mais no seu treino (dificilmente você treina em equipamento oficial e calibrado e vai perceber que isso faz uma grande diferença). Afinal, um ambiente novo, com 3 árbitros te julgando, cheio de comandos a serem rigorosamente obedecidos e mais 3 spotters por perto é bem diferente daquele que você está acostumado.

9- Primeira pedida é para ser válida

Se você fez uma carga apenas uma vez na sua vida na academia em um dia que você estava feliz, motivado e se sentindo bem, JAMAIS inicie um campeonato com essa carga. Sempre faça a primeira pedida com uma carga que você tem CERTEZA que é capaz de fazer até com algum imprevisto, como uma pequena lesão, por exemplo. Primeira pedida NUNCA é pra arriscar. Use seu aquecimento como parâmetro para saber se sua primeira pedida está ok ou se precisa mudar.

10- Campeonato não começa enquanto a barra não toca o solo



Que fique bem claro, aos que competem na modalidade full power, ou seja, os 3 movimentos,  que o campeonato não começa até o primeiro levantamento terra válido.
Se você já estiver cansado, competindo há pelo menos quatro horas e se, por acaso, não fizer um levantamento terra válido, você estará DESCLASSIFICADO da mesma forma que um atleta que não conseguiu fazer um agachamento válido, por exemplo. Tenha atenção e cuidado redobrado no aquecimento pra esse levantamento e não tenha vergonha nenhuma em baixar a primeira pedida para garantir seu total, que é a soma dos 3 melhores levantamentos válidos, e continuar no campeonato.

11- Respeite os árbitros e os outros oficiais



Árbitros estão em um campeonato para julgar e isso é uma tarefa complicada, passível de erros, porém, a maneira que você se dirige a eles deve ser SEMPRE respeitosa. Todos os que estão trabalhando em um campeonato merecem o nosso máximo respeito. Um exemplo: eu agradeci - de maneira sincera - um spotter que se antecipou e me agarrou em uma tentativa de agachamento em um campeonato mundial. Ele veio me pedir desculpas depois e eu disse “Você não precisa se desculpar pois achou que eu ia perder o movimento e agiu de maneira a salvar minha vida. Eu que agradeço por isso”.
Sim! Dá pra morrer em um agachamento ou supino catastrófico!


PARTE II: VIDA DE ATLETA

1- Não é fácil

Nosso país não conta com apoio para a modalidade: existem poucas bolsas disponíveis, poucos locais (pagos) para se treinar adequadamente e materiais são importados e, consequentemente, caros. Encare o powerlifting como um hobby caro e não como uma fonte de renda que fica mais fácil de administrar suas finanças a partir deste pensamento.

2- Vai doer… e muito.


Lembra do conceito de atividade física como forma de saúde e bem-estar? Pois é… ESQUEÇA. Esporte no alto rendimento é viver com dor e ser confrontado, quase que diariamente, com o motivo da sua escolha de estar ali fazendo aquele treino.
Costumo perguntar aos que me dizem ter uma “relação de amor” com o treino de força:
- Você é capaz de odiar algo que ama e seguir fazendo?

3- Ninguém vai reconhecer você na rua

O powerlifting é um micro universo com pouquíssimas pessoas e, no Brasil, a coisa é mais restrita ainda. Se você acha que vai ganhar um mundial e vai ser recebido com uma festa no aeroporto, mude de esporte. Futebol masculino profissional é onde você deve tentar esse tipo de fama.

4- Agachar 500kg não faz de você melhor que ninguém

Existe um certo “powercentrismo” sobre a força que faz com que alguns atletas de powerlifting se achem superiores às pessoas por causa de suas marcas. Gente que acredita que que sua marca é algo que a diferencia do resto do mundo ou que estar na elite mundial do esporte é algo importante... “MENAS” amiguinho…. beeeem “MENAS”.

5- O esporte continuará sem você

Como disse anteriormente, por ser um micro universo, esse é um esporte perfeito para pessoas que acham que são fundamentais ou vanguardistas em alguma coisa realizarem seus desejos patológicos de protagonismo…
Sabe o famoso velho saudosista que dizia “no meu tempo as coisas eram certas” ou “na minha época, não existia nada disso aqui… tudo mato”?
Pois é! Sempre haverá alguém com esse perfil para você encontrar pela frente.
Gente que acha que, se morrer hoje, o sol não nascerá mais amanhã. Vale à pena aprender com gente assim a como NÃO agir.

6- Seu recorde ou sua marca serão quebrados

Por maior que seja seu recorde ou marca, eles serão quebrados. O mundo é muito grande, tem gente muito forte por aí e isso vai acontecer. Não ache que, só porque você fez o “impossível”, ninguém nunca mais vai superar.
           Vai sim, tá!!! E por muito…
            Lide com esse fato!

7- Você não é, nem nunca será um guerreiro

Um atleta não é um guerreiro porque esporte não é guerra. Encarar os desafios que você escolheu - e está nessa vida porque quer - como uma batalha ou algo com maior importância do que tem realmente, é voltar no tempo dos gladiadores e batalhas da era pão e circo do império romano onde seu “sangue” só vai servir para entreter o público. Como disse anteriormente, não é um caminho fácil. Tentar fazer disso uma “guerra” soa, no mínimo, pueril.

8- Aprenda a ensinar


Chegar ao alto rendimento de maneira consciente e sensata, apresenta uma situação muito interessante e que devia ser mais estimulada: a possibilidade de ensinar aquilo que aprendeu.

Conhecimento não é algo pra ficar guardado no fundo da gaveta a sete chaves ou morrer com você. Creio que a única forma de imortalidade é a transmissão do seu conhecimento, ou seja, esse é o verdadeiro legado de um atleta de powerlifting as gerações futuras.

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terça-feira, 16 de maio de 2017

8 dicas para melhorar o seu Supino

Por Hugo Quinteiro

O supino é sempre um exercício que gera muita polêmica e preconceito quanto à sua execução, prática nas academias e utilização como exercício de fortalecimento geral. Essas dicas foram escritas após anos de conhecimento tácito e teórico sobre a disciplina que tenho mais dificuldade devido as minhas características anatômicas. Claro que não existe nenhuma verdade universal aqui. Elas representam um caminho que segui e deu certo. Pode ser útil pra você também e, principalmente, serve de porta de entrada para uma reflexão e discussão mais profunda nos comentários.

1- Pratique supino mesmo que você não o utilize como movimento competitivo: um dos grandes problemas atualmente é o fato das pessoas simplesmente não utilizarem o supino em sua rotina de treinos. O supino é um dos movimentos básicos, inatos e fundamentais do movimento humano (a habilidade de empurrar). Negligenciar essa cadeia gera fraquezas e desequilíbrios de força que podem custar performance em outros movimentos e, até mesmo, lesões.

2- O setup correto é seguro e benéfico para seu ombro: a máxima de que “supino lesiona o ombro” só acontece se ele for mal executado e o praticante estiver incorretamente posicionado no banco. A postura correta de setup coloca a musculatura do ombro fazendo exatamente o que ela precisa fazer, ou seja, estabilizar a articulação gleno-umeral. Perceba como deve ser na imagem 1:



(Imagem 1: estabilização correta do ombro)

3- É extremamente necessário saber aduzir e deprimir as escápulas para se posicionar no banco: sem adução e depressão das escápulas, o praticante não consegue estabilizar a articulação do ombro de maneira correta no banco e, com isso, não conseguirá produzir força de maneira mais eficiente (o famoso princípio “a estabilidade é a mãe da força”). Quanto mais instável você estiver no banco, menor será sua capacidade de produzir força. Algo não menos importante é que, articulações estabilizadoras instáveis aumentam o risco de lesão.


4- O arco não é o mais importante: manter as curvaturas naturais da coluna EM ESTABILIDADE é a coisa certa a se fazer. Com isso, já eliminamos o “supino de pés para o alto” e “costas chapadas no banco”. Por que isso? Porque esses dois tipos de supino geram INSTABILIDADE de movimento. E instabilidade não combina com força (não combina = lesiona). Para manter as curvatura naturais  (conforme a imagem 2), é necessário aduzir e deprimir as escápulas (para manter a cifose torácica fisiológica), Posicionar os pés atrás da linha do joelho (para manter a lordose lombar e manter o glúteo apoiado no banco). Fazer um arco competitivo nada mais é do que acentuar essas curvaturas para que se diminua a trajetória da barra e, com isso, se levante mais peso (imagem 3).



(Imagem 2: curvaturas fisiológicas da coluna)

(Imagem 3: arco competitivo)


5- Contar com ajuda é fundamental: SEMPRE tenha um parceiro de treino para ajudar a passar a barra quando estiver em cargas a partir de 80% da máxima (ou 5RM para menos). Isso se faz necessário por dois motivos: o primeiro é que sacar a barra sozinho fará, necessariamente, que você perca, no mínimo, a depressão das escápulas e não consiga retornar a posição ideal após isso (imagem 4). O segundo é para ajudar nas eventuais falhas (sim, elas ocorrerão e fazem parte do processo de aprendizagem). Um acidente em um banco de supino sempre gera consequências desastrosas ao praticante.



(Imagem 4: a importância da ajuda)
6- Saber identificar as fases do movimento: o supino é composto por fases e entendê-las é algo fundamental para sua correção e evolução nos treinamentos.
A primeira fase é o controle da excêntrica: o praticante de supino não pode simplesmente deixar a barra despencar até encostar no peito. É necessário desacelerar a força da gravidade que incide sobre a barra para que ela desça suavemente e encoste em um ponto específico no peito do praticante (esse ponto varia de pessoa pra pessoa). Isso se faz necessário para que a barra atinja um ponto em que as articulações estejam na posição que propicie a melhor geração de força concêntrica. Além, claro, de impedir que faça o movimento “quicado”, ou seja, a barra deve sempre encostar e repousar no peito antes de iniciar a fase concêntrica (tempo menor que 1 segundo, mas deve haver controle. Imagem 5).



(Imagem 5: ponto de contato com o peito e pausa)

A segunda é o stinking point (“ponto que gruda” em uma tradução livre). Essa fase do movimento acontece pelo fato das principais cadeias agonistas (peitoral e triciptal) estarem em desvantagem mecânica no mesmo momento, ou seja, o domínio do peitoral no movimento está saindo do ponto de vantagem e o ponto de dominância triciptal do movimento ainda não aconteceu. Essa fase é visível em cargas próximas da máxima por uma diminuição da velocidade angular do movimento e também é o ponto mais comum de falha em praticante experientes e com setup correto. Pensando em dimensões corporais das mais diversas (braços compridos ou curtos, flexibilidade e tamanho do arco), fica intuitivo pensar que cada praticante terá um stinking point diferente. Note a diminuição de velocidade angular no vídeo abaixo:




A terceira fase é o lockout (finalização do movimento). Possui dependência da cadeia triciptal. Erros de finalização, em geral, são deficiências nessa cadeia muscular e acontecem, frequentemente, no supino com uso de camisa suporte pois, nessa fase, a camisa tem pouco ou nenhum efeito sobre essa fase do movimento.


7- Escolha exercícios assessórios para corrigir deficiências: uma vez identificado em qual fase está a deficiência do praticante, escolha um exercício assessório para corrigir aquela deficiência. Gosto muito da forma de pensar de um autor, o Swede Burns, sobre como escolher exercício assessório. Ele diz pra “escolher qualquer um”. Como assim? Suponhamos que o praticante tem dificuldade em lockout no supino. Ele vai lá e escolhe LEG PRESS como assessório! Bizarro? Claro que sim. Chance de sucesso? Virtualmente nula. Mas ele utiliza isso e percebe que não deu certo. Aí ele muda de exercício e nada. Uma hora, ele realiza um exercício que funciona: lockout e sustentação de supino. Um dos exercícios adequados para esse tipo de problema.
Uma vez corrigida a limitação, o exercício assessório deixa de ser feito. Portanto, o que acredito ser interessante dessa maneira de pensar é que, por tentativa e erro, você vai acabar acertando pois você identificou um problema e está usando um exercício para corrigir aquele problema, ou seja, tudo que você fizer terá um propósito e um objetivo. Sua planilha de treino não tem um monte de exercícios que estão lá sem motivo nem razão e, muito menos, por tempo indeterminado.

8- Existem infinitas maneiras certas e infinitas maneiras erradas de se executar o supino: com tudo que foi discutido até agora, essa dica se torna quase intuitiva. Afinal, uma mulher com braços curtos vai se posicionar e executar um supino de maneira completamente diferente de um homem alto com braços longos. Isso também acontece com diferenças de peso entre atletas e, até mesmo, entre o mesmo atleta ao longo do tempo (mudanças de categoria ou o próprio treinamento com pegada em posições diferentes, melhora de flexibilidade e setup, etc. Portanto, entender as características e as fases do movimento se torna fundamental para saber se aquele praticante está executando o supino de maneira correta para ele (princípio da individualidade biológica do treinamento desportivo).

E você? Tem alguma dica para aumentarmos essa lista? Deixe sua opinião nos comentários

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